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Ensaio sobre o Fenômeno Poético Wilmar Silva

Clevane Pessoa de Araújo Lopes


Ruminar o feno seco e o feno verde da obra de Wilmar Silva, e ainda produzir leite, parece um sacrilégio,de tal forma a densidade do plantel tem nuances tantas e as ondulações de seu ritmo formatos tantos e quantos, que separar o todo em fardos vários, parece temerário.
Todavia, tentarei falar de seus livros e por certo falaria um século, pois tudo que dele brota,tem multifacetadas aparências, às vezes saindo uma coisa de dentro de outra, como um copo de alumínio portátil de suas próprias roscas, similando(simulando?) um disco, um a bolacha,um sol, uma lua, uma medalha e tanto mais.
Moinho de Flechas(*), que em 1991 foi Menção especial no Prêmio Jorge Lima,da União Brasileira de Escritores(RJ), alforje do universo wilmariano,oferece uma escuta de sons que se espraia dentro do contexto.Talvez por ser ator, o Poeta tem a exata noção do ritmo, das aliterações, nele às vezes representadas por silabações, que entre a estrutura mórfica das palavras de eleição e o soar das entonações, faz um crescente de marolas:

“esse levíssimo
traço de traça que laço”
ou “
“o farfalhar das folhas, o forasteiro da floresta” ...
 
Quem já o ouviu declamar, interpretar, entende essa perseguição necessária que faz à Palavra móvel.Nada nele é estático, nem o olhar, nem o gesto, nem o andar.O pensamento, então, faz-se de trotes e vôos.E ele o persegue com a escrita, não uma qualquer,mas com a poética, urdida, ardida, embora muitas vezes adoce o ardor da pimenta com gotas de mel.
Em Moinho de Flechas, Wilmar está na primeira pessoa, em Ego, Id e Superego, ele que estudou Psicologia e se conhece de suas vísceras.São muitas as declarações, decretos e descobertas de sua entidade sacra, bárdica(as maiúsculas são minhas,para chamar atenção do leitor a esse EU, sujeito de si, oculto ou a descoberto)) :

“(...)pássaras devassas/ENLAÇO de rosto e remela na fímbria /de quem endoidece/”
E ainda:
“(...)por mais que EU tenha olhos/de pirilampo/e gatilho de espinho”.
“(...)VOU tecer sete caminhos nas costas”***(...)”VOU rasgar meu gado no faro”(...)”a reentrância da tua flora EU desfolho”.
 
Se às vezes se desenha, perfil mágico, noutras, se assume, o deflorador, o desfolhador,nessa linguagem amorosa eivada de metáforas,de eufemismos, como acima.Mas também reconhece a angústia existencial de suas limitações em seus próprios limites ilimitados:onde o Outro entra necessário como um pré-requisito,o poeta se põe de tocaia, para espera.

“(...)vivo de câimbras,e vivo esperando que colham /pintassilgos/
e erva de passarinho” pois “(...)hoje não vou modelar terras alheias(...)”
 
Quando bate o desânimo, entrega-se ao inevitável;

“(...) esmoreço de fuligem ao raiar do pássaro “(...)
 
Rende-se, porém ao inevitável:

“(...)caço e não cultivo
a flor de asas e flocos”(...)
 
Imagens novas fremem:quem mais assim descreveria, recriaria a imagem do passarinho,FLOR DE ASAS E FLOCOS?Outra imagens se reconfiguram nesse febril acto de criar:tais quais “”UM GIRASSOL COM OLHOS DE CAIPIRA”,”A DEMÔNIA VESTIDA DE MARFIM, VESPA E MARINA”entre outras iluminuras.Note-se as quebras de paralelismo semântico, se não propositais, talvez apenas marcas de estilo na segunda parte do livro, intitulada “Ave Ribeirinha”, que isso ele é, esse moço nascido no Município de Rio Paranaíba, aqui mesmo nas Minas Gerais.Piador a avoador,olhos de novidade, a passarinhar trinar,, triar.Importa se troca o significado ou o significante dos vocábulos que dele brotam, quais olhos de nascente água? Não, até porque, ele É e continua:

“ (...)plantei meu canteiro de flores e pólvora,
piso na argila e argila não é nuvem.
a emboscada de suor rutila e floresce
vestida de rasgos e alforriada.
a peneira, um estilhaço que não germina
mas fere, feito navalha no ser”
 
Este poemeto tem os seis versos completos aí em cima.São do tamanho exato para o dizer.Faz parte da primeira estrutura do livro,quando, à maneira dos versejadores populares, ele que forma um intrínseco mar de dizeres não comuns,numera cada poesia e a chama de “verso”, no caso, a de número 11.
E em continuação à conjugação verbal na primeira pessoa, aponto ainda:

“(...) a confluência de rios adivinho num livro
antigo de ancestrais e fauna e parte fauno”(...)
 
Tentativas:

“(...) Tentei rasgar camerum com olhos de vidro”(...)
 
Atitudes:

“(...)guardei em algum ponto da terra,
o coração(...)
 
Wilmar permuta os saberes intuídos,com outros ofertados:

“(...)EU,também revestido de plânctons,adivinho
o feixe que brilha e ofusca o sol branco .(...)
 
E se reafirma humano:

“(...) EU faço de mim:
um ser de axilas e incenso”
 
Sutilezas como esse achado, são sobejas na Poesia de Wilmar, algumas , contundentes e definitivas:

“(...)escrevo com batom a origem do carvão
e vivo de lenhador”
 
Animismo, panteísmo, originalidade, sobretudo.O prefaciador de Moinho de Flechas, observa com acuidade:

“ (...) Como no neo Barroco e no simbolismo,há um apego ao metafórico,com pouca abertura para a denotação
 
para a função referencial da linguagem(a função poética está sempre em primeiríssimo plano)Assim não oferece facilidade de leitura”.Algo é sintomático nessa declaração:o ser-de-wilmar, seu ser poético, em verdade, entrosa a cadência de suas descobertas na busca do inusitado, com sua fala teatral.O Ator é adivinhado dentro do Poeta, quais as bonecas russas de madeira, matriuskas encaixadas umas dentro das outras, cada qual completa em sua dimensão.Talvez os leitores com menor vocabulário, tenham de sacar de um dicionário para compreender por qual razão certo vocábulo veio postar-se ao lado de outro.A completude,no entanto, é capturada por essa ave ribeirinha, com olhos de triagem, a bicar no chão das possibilidades...
Penso e entendo Wilmar Silva como alguém, que escreve/interpreta em ondulações perenes.Às vezes sua verve é uma diligência a passar com a tranqüilidade dos tempos calmos de outrora e o veículo, por vezes, será um tílburi.Noutras,é trem-bala, ultrapassando barreiras lingüísticas(como se nunca precisasse explicar-SE,mesmo se faz declarações sobre si mesmo”Ervas e esponjas,EU:ave ribeirinha/alcanço com a planta dos pés,/os rios, de impulso e ataque”).A Maria Fumaça entretanto, sai de quando em vez, apitando e fumaçando, ruidosa,deixando vestígios. Quer-se caipira, sabe-se poeta, esprai-se na areia de seus rios, mas não se deixa enganar pelas chamadas de hordas fascinantes.Se olhar para trás,não verá milhões de seguidores, mas seus leitores formam um compacto grupo de leais admiradores.Se o Brasil inteiro o descobre,se o mundo todo o ler, ave-santa!
Para terminar esse “Moinho de Flechas”,digo saber porque estas são disparadas sem cansaços, ao transcrever o último dizer desse volume:

“(...)conter palavras é como
reter sentimentos e pele”
 
E como sempre, encanta-me o não paralelelismo das palavras derramadas:”sentimentos epele.Ele é inteiro assim.
Mesmo temendo a provável fragmentação da obra como um todo,vou passar agora para uma ainda mais difícil leitura:a de ANU, fascinante mistério visceral, onde o leitor de mesmices ou o menos paciente, dará voltas e voltas para a necessária compreensão.Se há frases plenas de neologismos no primeiro livro cito,neste,Wilmar engole letras,engole fogo,quebra o ovo, cospe o novo, a novidade,evita o desperdício de letras e desafia o fluxo verbal dos outros, pois ao declamar-se,tudo se amaina, aplaina,escorrega e faz sentido.E passa a incendiar a imaginação de quem ouve...
Em edição da Orobó,ANU existe pleno de palavras desintegradas de letras ou sílabas, mas reintegradas a outra palavra, pela sonância , pelo sentido ou mesmo pela causalidade/casualidade.Assim começa esse exercício poético que ,à exaustão, cansa/descansa a vista do leitor:

“riomarnointeriordasgraiz
euanuavesoubichonasenda
poçodespelhoáslisárguacor
rentondvítriocorpocorpiodfauno
nichodgravetofelindiaviés
véudavalsíndigodobrasil
triçaentrioandorinhasanu”
 
Possivelmente,não haverá um ror de leitores pois a ociosidade causada pela mesmice rotineira do que nos impõe a mass média ou os currículos escolares ,para degustar esse livro onde o desafio de muitas releituras exigidas demanda tempo e a curiosidade, uma caudal de atenções fora-do-comum.No entanto,para os amantes do belo o convite à decifração é irresistível:do “decifra-me ou devoro-te”esfingeano ao “decifra-te ou devoro-me”, há desertos e oásis, ônus e bônus.Desvendar o “d” pelo “de”há de parecer fácil,reintegrar a desintegração de * rente,onde,vítrio,corpo,cor, pio,de,fauno”* ,no verso quarto, por exemplo, pode tornar-se uma atividade lúdica, mas é bem mais que adivinhação.Descompactar as palavras, em ANU, nas variantes dos vocábulos sintetizados/trocados pela riqueza sonora,é desafio circunstancial por um lado e noutro,estudar as sílabas amalgamadas, nas palavras processuais do verso,um enriquecimento para o amante da Poesia.Ouvir Wilmar a dizer as coisas desse ANU,um

privilégio.
 
Estroficamente compactados,entropicamente acondicionados, os versos de ANU remetem a sentido de todo que se alcança pelas partes, de um prato que se saboreia pelas beiradas.Quem iniciar pelo centro, pode queimar a língua dos condicionamentos.
Vejamos:

“qeuluarentoaindacotovio”
 
Apenas aí, os neologismos wilmarianos:de “luarento”, o que está cheio de luar, como alguém suarento está cheio de suor, é capaz de suar,o poeta continua capaz de enluarar-se,indefinidamente:é sua critividade inesgotável, sua inspiração original, de significações justapostas.Wilmar realiza o processo do amálgama, que rejunta,fragmenta para a multivalência da palavra-rítmo.
Um achado descritivo nesse universo passível de interpretações, mas aqui, inequívoco:

“ânuséliscoranéisdesaturno”
 
E a demonstração de um momento de ira,(talvez):

“drepententigreçoeuouricio”
 
O verbo entigrecer é mesmo incontestável.Esse ANU cerca-se de outras aves,mescla-se de simboliz/ações,desnorteia valores semânticos velhos demais para esse renovador do Verbo que é o a(u)tor...
ANU é para ter à cabeceira, vale como jogo e instigador de decifrações,treina ao paciência e desafia a Ciência vernácula.Suas figurações,configurações,sonâncias e ressonâncias, se estudadas em grupo, por certo conduzirão a numerosas combinações interpretativas.
O volume de “Lágrimas e Orgasmos” é de per si, interessante: escrito em parceria com Roberto Raquino, deve ser virado para que se termine um autor e inicie os escritos do outro.Primoroso, tem na capa , desenho de Dríade,menina-filha de Wilmar,menina-flor,meninamor.Esse livro–poema é a estréia de Wilmar,por que então está aqui em terceiro lugar?Isso,nada importa.Aleatoriamente, fui apanhando um ou outro de seus volumes.No início, iria mesmo comentar apenas “Moinho de Flechas”, mas foi impossível escapar à sedução desses livros.Na verdade, quero fazer um livro sobre eles, com muito mais setas nos trilhos e nas trilhas.De/marcações.Apenas por prazer pessoal,pois o leitor por certo, os desbravará a seu modo, circunstancial ou propositadamente.
Do parceiro, selecionei,prosa poética mais-que -perfeita, cadenciada, pluricordialmente apresentada(de “ORGASMOS”):

“fonte nas estranhas profundezas do espírito onde se banhar orgasmos de todo lodo que agora é abrigo também foi como ventre só o agora é futuro na fecundidade de um passado lacrimal a fonte em ruínas parece ceder no abrigo do barro estranhas profundezas sob os luares da lua de outono e verão primavera e inverno no corpo banhado sobre todo o mar de lodo orgasmos ventre de entranhas e profundezas e só o agora e aqui é futuro na fecundidade do abrigo que também foi ventre”
 
Os textos –con/textos são mesmo assim, desvirgulados, desparagrafados,masnão desgovernadas.Releia e perceba a espiral dos encaixes, um” leit motiv” cadenciado sem início nem fim.Wilmar, em “LÁGIMA” “águas e prazeres espelho que atrai quando vem a sinfonia da origem de nascer e a febre sensível dos corpos secos e desvairadamente ocultos na volúpia volátil de sexos macho e fêmema absortos vem a cantiga universal de amar sentir e viver encontrar corpo a corpo orgasmos a orgasmos na alucinação de desejos e vontade de abissar nas carícias do organismo macho e fêmea lágrimas para a vida fruto verde nas brincadeiras sinfonia da origem leite virginal genuíno e leitoso eco da liberdade absortos entre névoas e prazeres águas claras que vêm de encontro à lucidez embriagável de carícias e luzes lágrimas no ventre entre a sede de amar a gota mais suposta por duas almas absortas no amor há um tempo uma lágrima um homem e uma mulher há um prelúdio”
Assim, sem maiúsculas após a pontuação,ou sem nenhuma pontuação, são os verso de Wilmar, processo imitado por muitos, aliás.Claro, há tendências.No caso dele, é um amalgamento de sua estrutura poética.Estilo.
No miolo,da primorosa segunda edição já da Anome, selo do próprio Wilmar,cuidadoso consigo e com os demais editados,fotos dos a(u)tores,em plena mis-en-scéne teatral.Parceria indiscutivelmente rica.
Noutro dia, tive em mãos “ÁGUAS SELVAGENS”,editado pela ASBRAPA(**) E encontro no Wilmar um derrame lírico-erótico-fotográfico.Descreve, circunscreve.
Transcrevo CARBONO:

“Em busca da chama do pecado,
minha carne fragmentada se disfarça,
quebrada fera como se fosse matéria sagrada,
no etéreo perdida entre uivos.
Em busca do fogo do teu corpo,
Há o grito que perde o fôlego e engole a fala,
A possível de carbonizar-me.
Em busca do pecado do teu corpo,
A torta linha por onde me desvirgino,desnudo
Púbis angélico,
Sentidos abertos até à floresta.o mar e o deserto.”
 
Isso mesmo:as poesias dessas águas têm pontuação, são versos mais comportados,sem as inovações, reinvenções,mas sempre muito belas.
O tema da passarada está muito presente na obra de Wilmar, até nos títulos dos livros, como”O Pardal de Rapina”, de1999,”Arranjos de Pássaros e Flores”de 2002(ambos pela Orobó Edições)...
Do primeiro, leiamos o poema-título:

PARDAL DE RAPINA:

redivivo pardal de rapina
enterro entre ervas e árvore
medra o pio da coruja
preso em meus ouvidos.
cortado pelo sol da tarde
penas misturadas de terra
congelam em mim o sangue
o ópio
a água
o éter
 
E ainda essa encantadora e imagética poesia:

NOIVA

Pássara de organdi de plúmeo
Sol chegou rajada de esterco
Entre flâmeos coqueiros
Peito cerzido de furta-cor
Coloração verde-chumbo

Selvagem de armas silvestres
Aqueci sua cabeça quase nua
Amadurecendo vestígios de dor
Das feridas e suas cicatrizes
Enchentes a povoar a memória
Aluvião de guelras e escamas

Pássara de organdi planto
A manhã de folhas e flores
Sombra frutas a teu ermo
Guardo em mim
O teu flautim
Teu cheiro de ave curada
 
Wilmar mais uma vez, demonstra que em si, há a desinstalação das normas gramaticais.Não lhe importam pontuações, talvez porque seu condicionamento de ator,intérprete de emoções apurado, module os versos a partir das emoções de seu dizer.Isso, para mim, entra sempre na estilística de quem escreve com marca e des/compromisso com tudo aquilo não gestado em si, de per si, a seu modo de ser.
Para a filha mais velha, Dríade-o poeta concretizou duas meninas,esta e a pequena Jade-aveluda-se, afloresta-se no mistério e no simbolismo no nome escolhido:

DRÍADE

Sêmen vindo da alma celestial
é o teu ser misturado de sonho
e os devaneios da tua espera
lembram o arco-íris da manhã

ave de veludo ave das nuvens
ninfa e pássara dasfloresta
teus arabescos e tuas raízes
vieram de um ventre outonal

talho o teu rosto em minha cabeça
e a cabeleira cresce no azul
onde coroamosa fronte de folhas
essência rara de puro êxtase

quis desenhar o brilho dos teus olhos
e tua boca sombreada de sol
trago um véu tecido de flores
a guarda por ti no bosque real
 
As ilustrações desse encantador escrínio de emoções,onde o poeta se esparge em óleos de muitos aromas,são foto de Branca Maria de Paula, sobre telas de Juçara Costa.A edição é primorosa e o conteúdo traz a magia de levar a reflexões.A poemática é sutil em sua essência filosófica,visceral e sentimental sem pieguice alguma.Há tiradas geniais:

*(...)”o homem sórdido(...) não coloriu as íris de arco-
íris”(in “TURVAÇÃO)
*(...)”
 
Há ainda um erotismo sutilmente denso,delicioso para a sensibilidade, no seu modo de amalgamar sabores texturas na tessitura de sua voz amorosa:

*(...)perdido em ti penetro tua polpa
gemo de êxtase no clímax afrodite
(in afrodite)
*(...) cavaleiro sem cabresto
trago os pés atolados nos estribos
e as reses para carnear
( in nômade)
*(...)eu hirto e dúctil
um potrode fogo”
( in vênus)
 
Há, em Pardal de Rapina, os elementos rurais da infância do autor.Incansável, pincela as imagens no papel,como em

Atmosfera

Guernecido de pássaros e crias
o vento descampou o cerrado

Plantado no verdor dos calos
A chuva devastou o arrozal

Derretido no caminho de casa
A geada encaneceu o lavrador
 
Vários outros elementos pictóricos preenchem os olhos da alma, sem lacunas ou indagações, tal é a força da Poiesis de Wilmar:”varadas de neblina e de fadiga/novilhas e potrancas em crinas/ecoaram pela estrada”(in êxtase no cerrado) .
O volume conclui-se com uns verso de auto-reconhecimento, metapoeta que se descreve e à sua poesia, dispensando-nos de falar mais:

A composição

A derradeira nascente
Acende a ilha cercadade águas
À derradeira vertente
Os lobos
É que varam atrás de alimento
E a primípara seta eu é que lanço
E vôo.
 
Imbuído na inovação/renovação, como em ANU, SEIVA, traz em si o mesmo gérmen da palavra despetalada, fragmentada para re-fazer-se de si.Pertencendo à coleção Almanach de Minas,organizado por Mulheres Emergentes(da poeta Tânia Diniz),SEIVA é o volume XV,erótico, sensual da capa ao último poemeto,o livro reúne versos da letra “A” á “Z”.Muitas palavras abrem a boca e engolem outras, algumas se subdividem quais cortes de cocada, pedacinhos que somem, pedacinhos que aparecem.Somadas, cumulativas.reduzidas,tudo para celebrar um possível enlace entre o linguajar capiau com o da erudição verbal do poeta.Se for isso.Pode ser apenas uma atividade entre o ludus e o Eros criada pelo Bardo.Saboroso.

De SEIVA, aí vai:

Letra x

Sigo persigno-t libélula
Ou gris álida q desdenhu
Di batom a teus lábios-
Haja tempestade e re-lã
Pejos t abraçu e dou-mi
 
Impossível não se enredar na composição dos fonemas.As reversões.A cadência lembra o trote de corcéis, mas por vezes tamanha é a sutileza, que pensa-se em plumas, asas de borboletas ou libélulas a fremir.
O primoroso prefácio é de Oswaldo André de Mello que aponta para as chamadas palavras-valises(em francês, portmanteaux),”verdadeiros achados,palavras que nascem da aproximação ou superposição de outras palavras”.Como sonuturno” ,advinda de três outras,sono,soturno e noturno. .. A mim, lembra o mistério da serpente sagrada, oroborus,completa em si própria,no círculo cheio de magia, que completa quando morde a própria calda.Assim essas palavras acopladas, ligadas, trans/formadas, argamassadas com o mel da sensibilidade .
Wilmar fica assim, marcado pelos neologismos,similares aos de Guimarães Rosa,mas com sua marca agreste e urbana,simples e complexa.A editora, Tânia Diniz lembra, no prólogo, que há uma “estreita relação homem x natureza,em suas mais latentes manifestações.Um repertório que ele domina pelas próprias experiências de vida no campo, onde passou a infância e a juventude.
Inventivo,o Poeta torna-se floricultor de palavras, passarinheiro,sempre.E cria “Arranjos de Pássaros e Flores”,onde cada escrito une um tipo de flor e um tipo de ave, resultando em significativos verso.Há Arranjo de Patativas e Palmas”,”Andorinha e kalanchoes,”,”Rouxinol e Gloxínias”..Além desses títulos,as trinta-e-uma poesias são ainda assinaladas,cada uma,por um numeral correspondente a um dia do mês.Um pássaro no singular e flores no plural,em cada página.

Para a amostra, escolho, quase aleatoriamente, tal a qualidade desse trabalho,

ARRANJO DE PAPA-CAPIM E ESPATIFILOS.

Eu-menino,divido espatifilos por ti

Miro-égua distante,ventosa e alada/
Verdejante,o intangível eu arvoreço
À sombra da imbuia,archote de luar
E agora, juncado por carrapatos,eu
Separo folhagens e frutos em vagens
Volvendo sementes em meu corpo-
Ascendo capim,mata-pasto/ar e busto
Encharcam meus olhos de cores,longe
Vôo de papa-capim, de surpresa, searo
 
Por mais que eu deseje apresentar o Wilmar, apontar com o dedo da luz sua forma irisdiscente de falar a poesia,escrevendo-a dessa maneira inusitada,coartadas ou soltas as palavras,não creio que deva apontar tudo, pois que tal descobrir seu “ar+ busto”,entre a agropoesia e a poesia erótica,no vínculo ebúrneo das suas invenções?E que tal poder “searar”todos esses versos numa incrível(crível) colheita?
No dia 15 de abril/2004, Wilmar Silva , na Academia Mineira de Letras,recebeu um prêmio pelo lindo e original livro Arranjos de Pássaros e Flores.

Por lobogabriel - 18 de Junio, 2009, 14:16, Categoría: lecturas
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